Os homicídios de policiais em serviço ou em seus horários de folga foi tema de painel do 9º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, na tarde dessa quarta-feira (29/07). Palestrantes do Rio Grande do Sul e Pará, com dados de seus estados, demonstraram através de exemplos locais a situação que acontece com os policiais de todo o Brasil: a morte de policiais em decorrência de sua profissão.
 
Conforme levantamento feito pela doutoranda em Ciências Sociais da PUC-RS, a capitão da Brigada Militar Marlene Ines Spaniel, entre 2000 e 2014, ocorreram no Rio Grande do Sul 34 homicídios de policiais em serviço e de 85 em folga. Segundo a pesquisadora, a grande maioria desses homicídios ocorreu durante o trabalho ilegal fora da corporação para complemento salarial, ou seja, nos chamados “bicos”. Por estarem sem os cuidados da proteção do Estado, os policiais ficam mais vulneráveis para o enfrentamento da criminalidade, acredita a oficial da Brigada. 
 
A pesquisadora também apresentou outros números alarmantes a respeito da situação dos militares gaúchos, mas que também podem ser estendidos aos agentes de outros estados. Nesse período aconteceram cinco suicídios de policiais em serviço e 58 de policiais em folga. “Há um grande processo de vitimização de policias e o número de suicídios e homicídios são preocupantes, embora não pesquisados institucionalmente, inclusive com a desativação da assessoria biopsicossocial que existia”, conclui a pesquisadora.
 
Pesquisa semelhante foi elabora pela antropóloga e professora da UFPA, Fernanda Valli Nummer, sobre os homicídios contra os policiais do Pará. Entre 2013 e 2014, houve 83 mortes de policiais, sendo 67 homicídios e, destes, 54 policiais estavam de folga - a maioria em atividade fora da corporação. Segundo Fernanda, ao analisar os casos de homicídios de policiais a instituição militar reforça o discurso do domínio da técnica ao invés de analisar o fenômeno múltiplo e amortecimento das questões biológicas, psicológicas e culturais envolvidas nas ocorrências.
 
As duas pesquisadoras entendem que existem uma “subnotificação” e uma “maquiagem” das ocorrências de homicídio envolvendo policiais que estavam fazendo os chamados bicos – um tabu que precisa ser superado.
 
Outro ponto de concordância é que os dados relativos aos homicídios de policias são de difícil acesso, apesar da Lei de Acesso à Informação, e só podem ser obtidos através de contatos internos na corporação.
 
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
 
O 9º Encontro do FBSP acontece na FGV do Rio de Janeiro entre os dias 28 e 31 de julho, e debate temas como formação em segurança pública, homicídio de policiais e ciclo completo de polícia.
 
A abertura do evento contou com a presença do atual secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, e da secretária Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Regina Miki.
 
Na quinta-feira (30), o presidente da Anaspra, cabo Elisandro Lotin de Souza, faz palestra sobre o tema “Homicídios, direitos humanos e acesso à justiça”, com a coordenação do vice-presidente da Anaspra, subtenente Heder Martins de Oliveira, além da participação de Daniel Lerner (SRJ/MJ) e Helder Rogerio Sant Ana Ferreira (IPEA).

 

VÍDEO - Assista a intervenção do presidente da Aprasc/Anaspra, cabo Elisandro Lotin de Souza, na mesa que tratou sobre homicídios de policiais durante o 9º Encontro do FBSP:




VÍDEO - Intervenção do 1º vice-presidente de Anaspra, subtenente Héder Martins de Oliveira, na mesa que tratou sobre homicídios de policiais:

A relação entre a mídia e os órgãos de segurança pública, entre jornalistas e agentes de polícia e a busca de uma nova narrativa para tratar de segurança, criminalidade e violência foi tema de uma das oficinas do 9º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
 
O excesso de quantidade de assuntos sobre violência na imprensa, ao invés de temas afins e mais amplos, como segurança pública, foi uma das críticas apresentadas. Conforme diz a jornalista Flavia Pinheiro, repórter do jornal “O Globo”, “tem muito mais reportagem sobre violência do que sobre educação”.
 
Já para a pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Candido Mendes (Ucam), o problema não é quantidade de informação sobre violência, mas a qualidade. “A saída não é falar muito sobre violência, mas se falar muito com qualidade”, diz. 
 
Além de defender uma crítica à imprensa melhor formulada, ele apoia que o policial da ponta, praças e agente, precisa ser mais ouvidos pelos jornalistas, já que as fontes mais consultadas pela imprensa são das cúpulas das corporações. “As pesquisas quantitativas mostram que os policiais querem mudar a polícia. É por causa dos coronéis e dos delegados que não se muda a polícia, enquanto a grande maioria quer mudar a polícia”, afirma.
 
O baixo número de fontes de informação, e até mesmo a dificuldade de acesso, é outro problema apontado pelos jornalistas que cobrem a área da segurança. Se por um lado as fontes estão centradas nas autoridades políticas e policiais, por outro, existe uma dificuldade de obter informações brutas como dados e índices estatísticos.
 
Segundo a repórter Andrea Dip, a experiência da Agência Pública, portal de jornalismo voltado à grande reportagem, demonstra a dificuldade de acesso às informações da área de segurança pública, que muitas vezes são escondidas pelas autoridades ou simplesmente não estão organizadas. Por isso, o objetivo da Agência - fazer jornalismo de qualidade para qualificar o debate na área, baseado em dados da realidade - enfrenta dificuldades com a falta de acesso aos dados públicos. “Hoje em dia as pessoas fazem debate pautados em ‘memes’ da internet e em programas vespertinos que jorram sangue”, exemplifica.
 
A reportagem na área policial também enfrenta dificuldades, segundo Flavia, para se aproximar de fontes alternativas às oficiais, “na última década e meia”. Houve uma mudança total entre os jornalistas e as comunidades marginalizadas, especialmente depois do episódio da morte do jornalista da TV Globo Tim Lopes, atesta a repórter do jornal “O Globo”. “Havia um tempo em que o crachá de um jornal era um passe livre para entrar nas comunidades. Isso acabou e agora a fonte é predominante é a polícia, que de modo geral reproduz estigmas”, afirma.
 
As ações policiais dirigidas principalmente contra as populações marginalizadas e a cobertura da imprensa, que também encara esse grupo de forma estigmatizado, também são apontados como problemas a serem superados. “Embora tenha várias plataformas de divulgação das informações, o debate fica andando em círculo, de estigmatizar determinados segmentos da sociedade, moradores da periferia e negros”, explica Flavia Pinheiro. “O desafio [da imprensa e das instituições de segurança] é quebrar esse elo de reprodução de padrões de representações.”
 
Repórter do diário “Folha de São Paulo”, a jornalista Fernanda Mena defende que a comunicação de massa deve avançar qualitativamente em sua narrativa em três aspectos: analisar a historia; compreender o contexto; e apresentar a conjuntura. Para ela, as reportagens que tratam da temática violência e criminalidade devem “explorar as engrenagens históricas e sociais que fazem a violência aumentar sem perder a dimensão humana”.
 
No mesmo sentido, o jornalista André Caramante defende uma ação jornalística mais próxima das pessoas. Em sua opinião, a impressa tradicional não tem mais mobilidade a acaba ficando apenas com a versão oficial. De novo, a dependência à fonte de informação dos dirigentes policiais e políticos volta a se destacar.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O 9º Encontro do FBSP acontece na FGV do Rio de Janeiro entre os dias 28 e 31 de julho, e debate temas como formação em segurança pública, homicídio de policiais e ciclo completo de polícia.
 
A abertura do evento contou com a presença do atual secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, e da secretária Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Regina Miki.
 
Na quinta-feira (30), o presidente da Anaspra, cabo Elisandro Lotin de Souza, faz palestra sobre o tema “Homicídios, direitos humanos e acesso à justiça”, com a coordenação do vice-presidente da Anaspra, subtenente Heder Martins de Oliveira, além da participação de Daniel Lerner (SRJ/MJ) e Helder Rogerio Sant Ana Ferreira (IPEA).
Os profissionais da segurança pública mortos em decorrência da profissão serão homenageados na Câmara dos Deputados em ato público que será realizado na quarta-feira, 25 de fevereiro. O evento começa às 10h, no Hall da Taquigrafia, e se estende durante todo o dia, com apresentação de vídeo sobre o tema, contendo imagens e depoimentos de diversos locais do país.
 
A iniciativa é da Associação Nacional de Praças (Anaspra) e ganhou adesão de outras 13 entidades nacionais de representação de policiais e bombeiros militares, policiais civis, federais e rodoviários federais, além de agentes prisionais e peritos criminais. O deputado Subtenente Gonzaga (PDT-MG) é um dos organizadores do evento, que também conta com o apoio da Fundação Leonel Brizola. 
 
Com o apoio das entidades estaduais de representação dos policiais e bombeiros militares, de todo o país, caravanas de ônibus vão até Brasília acompanhar a homenagem. 
 
De acordo com o presidente da Anaspra, cabo Elisandro Lotin de Souza, o ato não tem caráter de greve, paralisação ou manifestação a favor ou contra governos. "É um ato de homenagem aos trabalhadores da segurança pública que morreram em defesa da sociedade. Estamos tomando essa iniciativa porque, infelizmente, os governos estaduais e federal, assim como boa parte da sociedade, tem ignorado essa triste realidade. Qualquer discurso ou convocação fora desses objetivos não tem o aval da organização do ato", explica Lotin. 
 
A direção da Anaspra ainda sugere, para profissionais da segurança que não puderem enviar representação à Brasília, uma manifestação, individual ou coletiva no dia 25: como acionar a sirene das viaturas, às 15 horas, durante um minuto; ou escrever mensagens nas redes sociais.
 
Texto: Alexandre Brandão (jornalista da Aprasc/Anaspra)